Sempre tive uma vida arraigada com muitas oportunidades, mas a história que eu vou contar não é sobre como eu poderia ter sido um Promotor ou Médico, e sim sobre o que eu me tornei.

Quando crianças, temos o costume de sonhar com um amor único e eterno. Não é o meu caso. Tinha onze anos quando meus pais se separaram. Isso não me afetou muito e até achei que fosse o melhor a ser feito, afinal não gostava quando minha mãe apanhava do meu pai. Queira ou não, meu desempenho foi fortemente afetado por isso e as brigas na escola acabaram aumentando também.


Foi um ano difícil. Decidi ficar com meu pai, porém forçadamente. Não saberia escolher qual era a pessoa que eu deveria ficar, afinal, eu amava os dois igualmente e mais do que tudo no mundo.

Meu pai, coitado, sempre viveu numa ilusão de grandeza, enfiado em suas garrafas de Natu Nobilis ele sempre me dizia que na vida o maior legado que eu posso deixar é honestidade e conhecimento - coisas que sempre tive, por sinal -, ele foi outrora um professor substituto de uma universidade no norte do Paraná e sempre me contava que era uma espécie de gênio incompreendido. Citava Hemingway, citava Marx e todo o ideal socialista/comunista, citava Nietzsche e me ensinou a nunca seguir uma religião - só mais tarde eu descobriria que isso só faria bem para mim -, citava outros grandes pensadores e coisas que não fariam muita diferença na minha cabeça de onze anos. Fariam, sim, depois, no subconsciente que eu criara para me refugiar do que eu posso chamar de vida hoje.

Naquele mesmo ano meu pai morreu. Na cama do hospital ele dizia que eu não teria herança, só o conhecimento e honestidade que ele me deixou. Chorei tal como uma criança chora ao nascer, com apenas onze anos esse ano foi um ano no mínimo estranho para mim. Já não sentia afeto pelos demais, já não tinha nenhum amigo para quem contar ou chorar e já não morava com a minha mãe mais.

Levaram-me para morar com a minha avó. Viúva, perdeu o marido em um acidente de carro, na volta do casamento do meu tio mais novo. Ela, com seus 70 anos, fora incumbida da missão de bem criar essa pequena criança que ela tinha visto nascer.

Eu não me lembrava bem da minha avó, meu pai nunca nos levou lá pois ela não gostava da postura dele em relação à drogas - meus pais era usuários de drogas como Maconha e Cocaína -, e nunca aprovou a minha criação com eles. Porém, como analfabeta que era, nada poderia pleitear quanto à isso.

Ela era aposentada e ganhava cerca de dois mil por mes. Comida nunca me faltou na vida, bem como estudos e os brinquedos que eu gostava. Eu estudava em uma escola pública, do lado da universidade. Era uma escola pública da qual você poderia associar qualidade ao nome, não como as de hoje em dia. No Paraná tudo era melhor do que aqui, talvez por ser menor, mas a vida lá não daria tão "certo" pois meu trabalho envolve pessoas que têm uma mentalidade um pouco maior do que rodeio e sertanejo, coisas que eu só poderia achar aqui.

Com o passar natural daquela vida, recebi a mensagem de que minha mãe teria morrido. Eu tinha 15 anos na época e, além da saudade incessante, senti um arrebatamento do desespero o qual nunca teria sentido antes e nem agora.

Minha mãe, minha querida mãe que eu não via há 4 anos, morreu e com ela se foi o meu coração que já não entendia de outro amor senão o materno. Apesar de todos os cuidados que minha avó me provia, senti a insurgente necessidade de ir embora dali e procurar novos ares. Os arredores de Maringá já não poderiam mais me fazer feliz.

Me lembro como se fosse ontem, a tarde de agosto que eu pegaria um ônibus certeiro para o meu destino.

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Meu nome é Enzo e tenho 22 anos. Sobrevivo como Michê no centro do Rio de Janeiro.

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